Wisconsin: de ninguém e de todos | Viagem

Wisconsin Dells, WI, USA
A caminhonete chega; de seu interior, uma americana pergunta por meu nome e diz que estava ali para me buscar.  
Aliviado, e à beira do telefone público ao qual havia tentado inúmeras  ligações até conseguir avisar de minha chegada, confirmo identidade.  Estava eu em Wisconsin, Centro-Oeste dos Estados Unidos, quase no Canadá, caso queira  um ponto de referência superficial.

Aguardava naquele local,  pacientemente, e com demasiado frio,  porque  há bem pouco  tempo havia chegado por ali. Moraria, se tudo desse certo, cerca de cinco meses naquele estado pouco notório norte-americano. E trabalharia em um resort. 

Estava, para ser mais preciso, em Wisconsin Dells, cidadezinha turística que funciona, podemos dizer, somente no verão, porque no inverno, amigo...

      Depois de explicar minha situação, fui levado ao Resort (a tal americana acabou sendo uma das minhas chefes por lá).

      Começava minha experiência em Dells. Já nos primeiros minutos por aquele local, uma ansiedade comum ao que é desconhecido me tomou corpo e mente. E tentava eu, de alguma maneira, me situar naquele país de língua  quase estranha, absurdamente longe de casa,  e que contrastava, pouco a pouco, aos meus costumes brasileiros. Cortava-se, ali, um "cordão umbilical" de quintal de casa. Pulava eu o muro; encarava, pela primeira vez,  e por tempo alongado, uma terra alheia mais remota.

      Posteriormente, após alguns contatos, e depois de ter conhecido meu colega de quarto peruano, cujo Português era provavelmente melhor que o meu, comecei a ficar mais calmo com a mudança.

       Wisconsin, para um brasileiro há pouco saído do verão, é um pecado gelado.  Chegara ali num primeiro de março, quando a temperatura local, beirando zero, junto a um vento persistente, conseguia, sem dó, penetrar infindáveis casacos, fazendo também pouco caso de luvas e toucas, por exemplo.

           O inverno local era de quase anular o corpo. Isso que não chegara ali num novembro ou dezembro, quando temperaturas passeavam pelos 15 ou 20 graus negativos com certa constância.Talvez, por razões como essas, é que um guarda de aeroporto tenha feito o seguinte questionamento quando soube que me direcionava  àquela localidade:

- "Wisconsin, what are you going to do in Wisconsin, man?!". 

  Bem...

         
Wisconsin River
Mas, vale dizer, o frio trazia também elementos agradáveis.
 Logo senti a neve agir pela primeira vez. Impraticável esquecer, ainda  hoje, depois de alguns anos, a primária noite de flocos caindo sobre o corpo. Brindava-me ali a realidade daquela sensação que só tinha tocado por meio de algum filme, por meio de algum programa de televisão. Mais tarde, ainda veria rios congelados, ou mesmo desceria montanhas de gelo junto a uma prancha de snowboarding. E claro, confesso, junto também a alguns tombos bobos, o que faz parte da trajetória de qualquer gênero de aventura que  se ouse pela vida.


Wisconsin Dells: batismo


Como uma espécie de batismo, a ida ao supermercado local era obrigação imediata entre os que chegavam naquela localidade fria e vazia. O intuito era dar as boas-vindas e já garantir a comida para a primeira semana. O transporte? Um Oldsmobile,  veículo que honrava, por completo, o termo "Old" em seu nome. Curiosamente, meses depois, eu viria a ser um dos donos daquele carro -  no que foi, provavelmente, uma das transações mais baratas da história da indústria automotiva: cinco proprietários,  42 dólares para cada -  not bad at allTal veículo - enferrujado e cheio de buracos - foi adquirido de um romeno com ares socialistas, mas que, num país mais do que  capitalista,  intercambiava perfeitamente no negócios.  

 Aos poucos, eu vinha tomando ciência daquele lugar.

           Com o passar do tempo, e o gelo derretendo, pessoas começavam a sair pelas ruas de Wisconsin Dells.  

        Quando em quando,  era eu quem partia com o quase ancestral Oldsmobile (fabricado em 1982, se não me equivoco), pelas vias da cidade.

       O Possante, apelido carinhoso, nem mesmo cano de descarga possuía. A cada troca de uma de suas quatro marchas, um estrondo novo surgia. Produzia um barulho exagerado por onde passava, o que funcionava também como aviso para quem quisesse uma carona. O modelo, noutras feitas, acabou por perder  ainda os vidros laterais dianteiros, que nunca mais se arriscaram a subir: certa vez,  uma preocupada garçonete, colega de um restaurante que trabalhei um tempo, dirigiu-se a mim com a intenção de alertar-me sobre a chuva que caía sobre o carro que estava "com vidros abertos". 

- "É assim mesmo, não tem vidros", respondi, em tom que mesclava brincadeira e uma certa vergonha...

        De qualquer forma, o velho automóvel acabou por se tornar um insólito símbolo local para nós, estrangeiros.   E era bem comum, em certa época, emprestarmos a geringonça a quem necessitasse de algo para se locomover. A gasolina, claro, era por conta do pedinte: afinal, estávamos  um tanto influenciados - lembremos - por um dos países mais capitalistas do mundo, onde, em certos lugares, até mesmo o ar dos pneus era cobrado pelos postos, ou gorjetas eram sempre aguardadas em favores triviais.  E mais:  talvez nossa tal  mesquinhice também  se justificasse, já que se fazia necessário garantir o bread de cada dia, obviamente. Amém

Vivia. 

Quando o calor veio, as atrações locais de Dells mostraram suas caras

        A cidade, que inicialmente havia se apresentado fria e deserta, enfim se mostrou viva. Shows inusitados, museus de ares distintos, os mais variados parques e as mais diferentes atrações aquáticas  se mostraram coisas frequentes. Veículos anfíbios, por exemplo, levavam turistas ali e acolá pelas terras e pelas belíssimas águas do Wisconsin River

Wisconsin: a alma


           No entanto, para nós, os de fora, era o núcleo intercambista que importava - era ali que as coisas aconteciam; estrangeiros, assim como eu, não paravam de chegar ao local para tentar desconstruir um pouco de sua rotina de casa. Procurávamos por ares novos, quem sabe por um tantinho de frio na barriga, por aventura - um chute na bunda da zona de conforto. Imagine um monte de gente com tal espírito junta. Possibilidades mil...

      Naquele estado, naquela cidadezinha que revelou-se intensa quando as temperaturas ficaram mais elevadas, e em um dos inúmeros resorts locais, então, trabalhei por alguns meses.

           Tomei feições de balconista, garçom, ajudante e de runner, ou seja: um auxiliar de cozinha com ares de chef (bem, um pseudochef, que fazia, na maior parte do tempo, frituras e coisas banais). O que era, confesso,  às vezes trabalhoso demais - mas, ao mesmo tempo, talvez a mais agradável das funções disponíveis em nosso contexto.

        Naquele estado tão pouco conhecido, conheci um tantinho do mundo. Até porque tais estrangeiros, ou melhor, nós, estrangeiros, de forma natural, formávamos certos tipos de comunidades cosmopolitas. Jogávamos, por assim dizer, em uma vida alternativa a que tínhamos em nossas pátrias.

Havia todo um lado B multicultural a ser esmiuçado por cada um que chegasse por lá.

Housing
       Estando ali por razões similares, a conectividade e a interação, por certo, eram elementos velozes  e comuns a todos nós de fora. Naquela cidade quase despercebida do resto do globo,  em alojamentos que pareciam mais uma síntese de mundo, americanos, brasileiros, tailandeses, filipinas, búlgaros, romenos, equatorianos, peruanos, finlandeses - entre tantas outras nacionalidades - quebravam, dia após dia, suas barreiras. Música, gastronomia, flerte...

     Na terra de ninguém, e ao mesmo tempo  terra de todos, burlavam-se limites linguísticos e convenções culturais. Havia uma mescla das gentes. Uma mescla de novidades.

Madison, WI
       Num encontro de pátrias,  entre sentimentos  que afloravam de formas constantes e distintas, entre altos e baixos, risos e choros, cada um buscava um pouco mais do mundo pra si; e lá, numa realidade impensada e temporária, por que não, encontravam-se, de vez em quando, também  inconsequentes e  fortes amores; contudo, estes eram quase sempre curtos: datados, infelizmente, por um limite de tempo de visa americano. Era quase sempre preciso voltar pra casa.

Wisconsin foi um aprendizado, quiçá um renascimento, um novo batizado, uma quase Pasárgada inesperada - um prêmio saudoso aos bons malucos que se arriscaram ali pisar.  

 O que fui fazer em Wisconsin, amigo guarda?

- Viver um tanto mais, ora. Como sempre é de bom tom fazer...

* Maino 
   Editor do Repórter Cultural

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